TDAH e altas habilidades na nova geração: o que a liderança precisa entender

Um colaborador entrega um trabalho brilhante em dois dias e depois trava numa tarefa simples por duas semanas. Outro faz perguntas que ninguém pensou em fazer e não consegue seguir um procedimento de cinco passos. Um terceiro rende muito mais no fim da tarde e é considerado desengajado porque chega

Um colaborador entrega um trabalho brilhante em dois dias e depois trava numa tarefa simples por duas semanas. Outro faz perguntas que ninguém pensou em fazer e não consegue seguir um procedimento de cinco passos. Um terceiro rende muito mais no fim da tarde e é considerado desengajado porque chega atrasado.

Antes de virarem casos de desempenho, essas situações costumam ser casos de incompatibilidade entre o funcionamento da pessoa e o desenho do trabalho.

O que mudou

Não é que exista mais neurodivergência agora. Existe mais identificação. Diagnósticos que antes só apareciam na infância, ou não apareciam nunca, hoje chegam na vida adulta, e uma parcela relevante da força de trabalho entra na empresa sabendo como funciona.

Junto com isso vem outro fenômeno menos comentado: pessoas com altas habilidades que nunca foram identificadas e que carregam um histórico de frustração com estruturas rígidas. É gente que aprende rápido, se entedia rápido e sai rápido.

Onde a empresa erra

Confunde funcionamento com caráter. Dificuldade de sustentar atenção em tarefa repetitiva vira “falta de comprometimento”. Necessidade de entender o porquê vira “questionamento de autoridade”. A leitura moral fecha a porta antes da conversa começar.

Padroniza o que não precisa ser padronizado. Muita regra existe por hábito, não por necessidade. Horário fixo em função que não atende cliente, reunião presencial para assunto que caberia num documento, procedimento longo para tarefa simples.

Pede diagnóstico. Esse é o erro mais grave e precisa ser dito com clareza. Empresa não deve investigar, presumir nem registrar condição de saúde de colaborador. Isso é dado sensível, protegido por lei, e a busca por essa informação expõe a empresa a passivo por discriminação. O gestor não é clínico e não deveria tentar ser.

O que a liderança pode fazer sem entrar em terreno clínico

Pode ajustar o trabalho, que é o que compete a ela.

Dar contexto antes da tarefa. Explicar por que aquilo importa melhora a execução de qualquer pessoa e é decisivo para quem precisa de sentido para sustentar atenção.

Combinar entregas, não presença. Onde a função permitir, medir resultado em vez de horário resolve boa parte das fricções.

Escrever o que é importante. Instrução verbal longa se perde. Procedimento escrito, curto e acessível ajuda todo mundo e é a base de um bom manual operacional.

Dar retorno curto e frequente. Avaliação anual não corrige rota. Conversa de dez minutos a cada quinze dias corrige.

Aproveitar o pico. Gente que resolve problema complexo com rapidez incomum deveria estar em projeto de melhoria, não em rotina repetitiva.

Quando envolver profissional

Quando o colaborador procura a empresa. Aí o caminho é acolher, respeitar a confidencialidade e, se houver programa de apoio, oferecer.

E na frente coletiva, avaliação psicossocial conduzida por profissional qualificado ajuda a empresa a entender riscos do ambiente sem individualizar diagnóstico, que é exatamente o que a NR-1 passou a exigir.

A pergunta certa não é o que há de errado com essa pessoa. É se o trabalho está desenhado para que gente diferente consiga entregar bem.

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O trabalho de mapeamento cognitivo e avaliação psicossocial em parceria com a Sistólica olha para o ambiente, não para o diagnóstico individual.

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